Os instrumentos eram chocalhos feitos com embalagens recicladas e depois pintados com cores fortes. Era gostoso de pegar e de ver; alguns com formato de sorvete que até aguçava o paladar.
Iniciamos bem devagar a fazer barulho com um dos chocalhos, deixando ao meu lado, a cestinha colorida com vários outros chocalhos dentro.
Pouco a pouco, eles foram pegando os chocalhos e iam balançando cada vez com mais força. Logo todos estavam experimentando a sensação daquele som.
Neste dia, os acompanhantes também participaram. O som dos chocalhos foi ficando cada vez maior e desconexo, cada um tocava no seu ritmo. Aos poucos foram chegando pessoas que ficavam na porta olhando curiosos e oferecíamos os chocalhos. O grupo estava se unindo formando uma "rede" entre as pessoas.
De repente uma criança chorou, teria que tomar outra picada na mãozinha, pois havia "perdido a veia" como eles dizem. Aliás "perder a veia" era uma preocupação constante.
As crianças paravam de fazer o que estavam fazendo e ficavam olhando para o companheiro. Se ela chorasse perguntavam: "Está doendo?" Eles são solidários neste momento.
Então eu perguntei: "Vamos escutar o som desse choro? Como é o som deste choro? Vocês gostam deste som?"
Ninguém respondeu, mas a menina parou de chorar e demos um sorriso para ela.
Em seguida sugeri trocar de instrumento com o vizinho.
Em outro momento pedi um "break" (parada) e aí veio o som do silêncio.
"Que som tem do lado de fora da janela? Perguntei. As crianças responderam: "De carro, de ônibus!"
"E do lado do corredor?" Resposta de uma menina alegre e sorridente: "De um monstro?" - e eu perguntei:"Como é este monstro?" Resposta: "Ele está atrás de você!"
Mais tarde fiquei pensando que "monstro" seria este que vem do corredor? Talvez para as crianças esse "monstro" pode ser a própria doença que está representada pelos médicos, enfermeiros, agulha e injeção, a dor.
Voltamos novamente para o som do grupo. Começamos a perceber um ritmo que foi definido por todos que era de um trem.
Então pegamos carona neste trem: "O trem vai partir!" Começamos a chacoalhar devagar e fomos aumentando à medida que este trem tomava velocidade.
"Que som tem este trem?" "Piu! Piu! chak, chak, chak, chak"
E agora estamos parados na estação. "Que som tem nesta estação?"
"De cachorro, de gente" e imitaram alguns animais, soltando sons pela boca.
Depois dividimos o quarto em grupos para fazer uma conversa com os chocalhos.
Terminamos deixando o som de beijinhos no ar para as crianças.